Nem tudo que “treme” é uma convulsão: pode ser uma parada cardíaca

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Escrito por José Sérgio Carriero Junior

Este post é principalmente para quem trabalha com Regulação Médica em serviços de Atendimento Pré-Hospitalar de Emergência. Mas vale também para o atendimento daquele paciente que chega “convulsionando” na Sala de Emergência.

Uma das grandes qualidades dos profissionais que trabalham com atendimentos de Emergência é a capacidade de se antecipar às situações que vão abordar. É o famoso “estar ligado” nas condições que se apresentam.

Conforme os resultados de um estudo recente1, cerca de 4% das “convulsões” são na verdade paradas cardíacas (mais resultados serão mostrados em seguida). Apesar da baixa porcentagem de casos, ficar atento a essa forma de apresentação pode potencializar a chance de sobrevida dessas vítimas de parada cardiorrespiratória (PCR).

O problema primário durante a PCR é a perda súbita da perfusão cerebral. Como grande parte das vezes isso pode ser devido a uma fibrilação ventricular, alguns pacientes apresentam movimentos ou permanecem em uma posição rígida e isso é interpretado como uma crise convulsiva.

Veja nos quadros abaixo informações e resultados do estudo já mencionado anteriormente:

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Adaptado de Schwarzkoph M et al.1
Captura de Tela 2020-08-05 às 11.33.59
Adaptado de Schwarzkoph M et al.1

Outro resultado que chamou a atenção foi que, nos pacientes que tiveram atividade semelhante à convulsão durante a ligação telefônica, a duração (mediana) dessa atividade foi de 80 s. Portanto, a “crise” em geral parece ter uma duração breve.

Apesar dos atrasos significativos no reconhecimento da PCR e para iniciar a RCP nos pacientes com atividade semelhante à crise convulsiva, esse grupo de pacientes, no estudo, teve uma taxa de sobrevida maior do que o grupo em que não foi vista a “convulsão” como apresentação inicial da PCR.

Os autores observaram então que, durante o atendimento telefônico, se for descrita uma situação semelhante a uma crise convulsiva cuja duração for relativamente breve, deve-se atentar para a presença de respiração agônica (esta foi mais prevalente no grupo “convulsão” do que no grupo sem convulsão no estudo) e verificar se não há história prévia de convulsões. Tudo isso agregado aumenta a chance de ser uma PCR ao invés de uma crise convulsiva. Ao reconhecer a parada cardíaca, deve-se orientar sobre a realização de compressões torácicas enquanto as equipes das ambulâncias deslocam para o atendimento na cena.

O mesmo raciocínio vale para a Sala de Emergência. Lembro-me de um caso em que uma paciente chegou à classificação de risco com queixa de dor torácica. Foi encaminhada para a realização de um eletrocardiograma e “convulsionou” durante o exame. Quando nos comunicaram na Sala de Emergência que essa paciente tinha “convulsionado na sala do Eletro”, rapidamente pedimos para trazê-la para a Emergência e já puxamos o carrinho de parada. Resumindo: ela estava em FV e foi rapidamente desfibrilada, retornando à circulação espontânea dois minutos depois. Apresentava um infarto com supra de ST no pós-PCR imediato. Tomamos as medidas necessárias e ela sobreviveu.

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Mensagens para o próximo plantão

Lembre-se: “crise convulsiva seguida de PCR” pode ser na verdade uma parada cardíaca desde o início.

-No atendimento telefônico (regulação médica): breve duração da “crise convulsiva” + respiração agônica + ausência de história prévia de convulsões aumentam a chance de reconhecimento de uma PCR e as orientações para início das compressões torácicas devem ser realizadas.

-Na Sala de Emergência, as mensagens anteriores também se aplicam, dando continuidade ao atendimento da PCR com os suportes básico e avançado de vida.

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Referência

1-Schwarzkoph M et al. Seizure-like presentation in OHCA creates barriers to dispatch recognition of cardiac arrest. Resuscitation. 2020 Jul 13;S0300-9572(20)30275-6. Online ahead of print.

 

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